Massacre no Compaj merece explicação

  • Postada em: 3/01/2017
  • Autor: Eustáquio Libório

A chuva que caiu em Manaus desde a noite de 31 de dezembro e se prolongou pelo domingo de Ano Novo não impediu que 2017 começasse muito quente, com rebelião de detentos envolvendo duas unidades prisionais da cidade, culminando com mortes de pelo menos 60 detentos de uma facção criminosa, segundo informou o secretário de Segurança do Amazonas, Sérgio Fontes, para quem o problema dos assassinatos está ligado ao narcotráfico e deve ser tratados como prioridade pelos Estados, com envolvimento do governo federal.

 A insegurança continua a rondar não só as ruas de Manaus, mas os próprios agentes de segurança do Estado, feitos reféns no episódio

Das afirmações feitas pelo secretário de Segurança, entre as quais a de que a rebelião e assassinato de membros de facções criminosas rivais já vêm acontecendo há algum tempo, inclusive em Estados da região Norte, dá para se questionar, então, por que não foram tomadas medidas visando impedir que tais tragédias acontecessem por aqui.

Até onde se sabe, o Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), além de ter uma população carcerária muito superior à sua real capacidade – fato comum pelo Brasil afora, infelizmente – abrigava detentos pertencentes às duas facções conhecidas com PCC e FDN em suas instalações. Grosso modo, é como atiçar, pela proximidade física, tais rivalidades em função da animosidade existente entre esses detentos por seus interesses no narcotráfico.

O próprio secretário de Segurança também afirma que a tragédia desencadeada no primeiro dia de 2017 vinha sendo planejada pela facção que matou, degolou e esquartejou membros do bando rival. Ora, se estava sendo planejada e o aparato de segurança sabia disso, por que não foram tomadas medidas que evitassem a ocorrência dos assassinatos em massa, no Compaj, que levaram, mais uma vez, Manaus e o Amazonas para o noticiário nacional e internacional por um fato negativo de tamanha magnitude.

É ainda afirmação do secretário de Segurança que o massacre, como ele qualificou os assassinatos, foi uma guerra entre gangues ligadas ao narcotráfico. Pode até ser, no entanto, falta explicar por que só se tem notícias de mortos ligados ao grupo criminoso conhecido como PCC.

Além disso, outras questões ficam no ar quando se pensa na “logística” – digamos assim - para executar cerca de 60 indivíduos que, pela trajetória de vida na rota do crime, não eram cidadãos pacíficos e, portanto, com toda certeza, iriam reagir à altura quando agredidos, impondo violência e mortes também a seus agressores. Não foi o que aconteceu.

Nessa “logística”, que contou com a ação diversionista de uma fuga em massa no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat) para desviar efetivos policiais para lá, enquanto as gangues entravam em conflito, falta ainda ser explicado com quais armas foram cometidos os assassinatos. A única certeza que o público tem agora é a de que a insegurança continua a rondar não só as ruas de Manaus, mas os próprios agentes de segurança do Estado, feitos reféns, ampliada pelos cerca de uma centena de foragidos que nada têm a perder se matarem mais alguém enquanto estiverem nas ruas.

A favor do secretário de Segurança pode ser dito que, em sua gestão, a quantidade de droga apreendida no Amazonas foi muito grande, cresceu bastante, mesmo assim os interesses do cartel da droga não se intimidaram e continuam a faturar com o narcotráfico, prática que deve se ampliar mais ainda – após as festas de fim de ano – com a proximidade do Carnaval.

Os fatos ocorridos em Manaus no fim de semana são, porém, consequência da falta de combate às causas que levam ao crescimento do narcotráfico na região e mesmo no Brasil, um país onde o cidadão comum praticamente não pode se armar para defesa própria, enquanto o bandido anda armado até os dentes e é, ao que parece, o dono do pedaço até nas penitenciárias.

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